quarta-feira, novembro 23, 2005

Anúncio da Rosa - Carlos Drummond de Andrade

Imenso trabalho nos custa a flor.
Por menos de oito contos vendê-la? Nunca.
Primavera não há mais doce, rosa tão meiga
onde abrirá? Não, cavalheiros, sede permeáveis.

Uma só pétala resume auroras e pontilhismos,
sugere estâncias, diz que te amam, beijai a rosa,
ela é sete flores, qual mais fragrante, todas exóticas,
todas histórias, todas catárticas, todas patéticas.

Vêde o caule,
traço indeciso.

Autor da rosa, não me revelo, sou eu, quem sou?
Deus me ajudara, mas ele é neutro, e mesmo duvido
que em outro mundo alguém se curve, filtre a paisagem,
pense uma rosa na pura ausência, no amplo vazio.

Vinde, vinde,
olhai o cálice.

Por preço tão vil mas peça, como direi, aurilavrada,
não, é cruel existir em tempo assim filaucioso,.
Injusto padecer exílio, pequenas cólicas cotidianas,
oferecer-vos alta mercância estelar e sofrer vossa irrisão.

Rosa na roda,
rosa na máquina,
apenas rósea.

Selarei, venda murcha, meu comércio incompreendido,
pois jamais virão pedir-me, eu sei, o que de melhor se compôs na noite,
e não há oito contos. Já não vejo amadores de rosa.
Ó fim do parnasiano, começo da era difícil, a burguesia apodrece.

Aproveitem. A última
rosa desfolha-se.

3 comentários:

Oazulnaoéblue♥ disse...

É lindo este poema,mais bem que você poderia analisa-lo neh?
é que asism ficaria mais bonito e interessante,quando alguém fosse ler...=]

beijos.

Verônica disse...

falta a análise mesmo!!!

Guilherme disse...

Esse é um poema da "Rosa do povo" um livro de poesias que Drummond sugeria que fosse destinado ao povo, mas de linguagem muito difícil para que o povo o lesse. No livro, a rosa é a própria poesia dele e esse poema nada mais é que o anúncio da poesia. Ele está caracterizando as suas poesias e ao final ele até destaca que são poucos os que curtem poesia atualmente.