domingo, fevereiro 05, 2006

Eu, Etiqueta - Carlos Drummond de Andrade

Em minha calça está grudado um nome
que não é meu de batismo ou de cartório,
um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
que jamais pus na boca, nesta vida.
Em minha camiseta, a marca de cigarro
que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto
que nunca experimentei
mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
de alguma coisa não provada
por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
minha gravata e cinto e escova e pente,
meu copo, minha xícara,
minha toalha de banho e sabonete,
meu isso, meu aquilo,
desde a cabeça ao bico dos sapatos,
são mensagens,
letras falantes,
gritos visuais,
ordens de uso, abuso, reincidência,
costume, hábito, premência,
indispensabilidade,
e fazem de mim homem-anúncio itinerante,
escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É doce estar na moda, ainda que a moda
seja negar minha identidade,
trocá-la por mil, açambarcando
todas as marcas registradas,
todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
eu que antes era e me sabia
tão diverso de outros, tão mim-mesmo,
ser pensante, sentinte e solidário
com outros seres diversos e conscientes
de sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio,
ora vulgar ora bizarro,
em língua nacional ou em qualquer língua
(qualquer, principalmente).
E nisto me comprazo, tiro glória
de minha anulação.
Não sou - vê lá - anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
para anunciar, para vender
em bares festas praias pérgulas piscinas,
e bem à vista exibo esta etiqueta
global no corpo que desiste
de ser veste e sandália de uma essência
tão viva, independente,
que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
meu gosto e capacidade de escolher,
minhas idiossincrasias tão pessoais,
tão minhas que no rosto se espelhavam,
e cada gesto, cada olhar,
cada vinco da roupa
resumia uma estética?
Hoje sou costurado, sou tecido,
sou gravado de forma universal,
saio da estamparia, não de casa,
da vitrina me tiram, recolocam,
objeto pulsante mas objeto
que se oferece como signo de outros
objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
de ser não eu, mas artigo industrial,
peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é coisa.
Eu sou a coisa, coisamente.

14 comentários:

Rodrigo disse...

O q ele quis dizer com esse paragrafo?


Estou, estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda
Seja negar minha identidade,
Trocá-la por mil, açambarcando
Todas as marcas registradas,
Todos os logotipos do mercado.

Rodrigo disse...

O q Carlos drummond quis dizer com esse paragrafo?.

Estou, estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda
Seja negar minha identidade,
Trocá-la por mil, açambarcando
Todas as marcas registradas,
Todos os logotipos do mercado.

leticia disse...

q coisa coisante ele é?

rafaella disse...

não entendi bolufas de nada??!!!
traduza pos favor..

Ana Clara Iacomo disse...

Nesse poema, Drummond se refere às novas tendências que surgiam em sua época: o consumismo, o poder de uma marca, o desejo pelo logotipo no lugar do desejo pelo produto em si.
Ele escreve como se estivesse se rendendo às marcas, virando uma propaganda ambulante ao vestir logotipos:
"ainda que a moda
Seja negar minha identidade"
Nós, que usamos as marcas ao invés dos produtos, anulamos quem somos para nos transformarmos em manequins ambulantes!

Ivy disse...

verdadeiro este poema!
palmas para Carlos Drumond de Andrade

Anônimo disse...

eu adorei este poema
Carlos Drumond de Andrade É REALMENTE UM VERDADEIRO GÊNIO DA LITERATURA BRASILEIRA.

Pamella disse...

ñ entendi nada mais valeu me ajudo na materia de geografia.. deve de casa rsrsrsr

Robinson Lino disse...

É até que eu gostei... vocabulário complicado, preciso ler mais.. ok's.

Ricardo alexsandro disse...

Poema tão antigo, mas ao mesmo tempo tão atual, pois estamos vivendo o que se passa no poema, agora somos coisa coisamente.

Paloma P.C disse...

complicado ? um pouco antigo? sim mas vivemos em tempos em que realmente somos verdadeiros homens-anúncios,ás vezes nem ligamos pro que vestimos pode ser horrível mas por ser de uma determinada marca se torna bonito.
Sim perdemos nossas identidades desde o momento em que deixamos de usar certas roupas seja pra agradar alguém ou pra ser aceito em um determinado grupo social etc
Isso acontece diariamente

Susi disse...

Não bastando ser meu preferido Drummond, o poema é fantástico e feito tão longe dos dias atuais, cai tão bem na presente data onde OSTENTAR é a palavra chefe. Drummond <3

Anônimo disse...

nao entendi muita coisa tb nao, mais obrigada, é pra um trabalho de religiao, rsrsrs
bia.

Mikelly Lima disse...

Realmente a crítica expressa por Drummond nesse poema retrata originalmente o cotidiano da atualidade no mundo capitalista em que vivemos!! Nos tornamos escravos do consumo!!