sexta-feira, março 19, 2010

Aurora I

Era uma vez, no distante mundo dos pensamentos de Aurora, uma menina que não sabia o que sabia. Todos os dias ela acordava bem cedo, com pensamentos que diziam coisas que não faziam sentido, e de repente faziam, para depois de algum tempo perderem novamente seu sentido. Passava o dia pensando, para esperar que a noite logo chegasse e ela pudesse se deitar também pensando, e pudesse sonhar pensando... e nesse tanto pensar, perdia-se dentro dela.

Certo dia resolveu gritar por socorro. Vários à sua volta vieram, mas ninguém parecia conseguir ajudá-la. Cada um contribuiu como podia, da maneira que achava melhor.

Aurora não sabia se o problema era se ela não conseguia pedir ajuda direito;
se os outros não a entendiam;
se ela não entendia o que diziam.
Ou talvez tudo isso muito junto.

Seus olhos ficaram tristes, voltaram-se para dentro, tudo ficou desfocado. O joelho, o chão do quarto, a janela... um mar de cores sem forma. Ela sentia desaparecer nas formas de seu quarto, esparramada nos cantos dos móveis. A força havia esvaído de si; e lá ficou, largada. Sons sem sentido, pensamentos que não se completavam e que se esqueciam, imagens que não eram vistas... ficou silêncio no meio de barulho sem forma, até que ela sentiu frio. Buscou calor e conforto em sua cama, conseguiu fechar os olhos, olhar para ela. E seu calor foi voltando, sua força, seu olhar...
Nesse momento ela está sentada, não mais esparramada, nem congelada. Olhando, buscando, achando forças num vazio que parecia infinito de nada.

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Escrevi esse fragmento no final de 2008, e acabei de ajustar um ou outro detalhe. Aurora já é uma personagem antiga, tenho outros fragmentos e contos inacabados que pretendo postar num futuro "não tão distante". Aliás, falando em contos inacabados, acabei de me lembrar de um antigo conto, o da "moça de vestido branco rasgado", ou "moça presa na torre", ou quem sabe, "da tempestade". Não tem nome, mas a história gira por aí. Vou procurá-lo, quem sabe termino e posto por aqui.

5 comentários:

Kate Bentivoglio disse...

Ju, ache as suas muitas Auroras que estão perdidas e nos dê de presente!Gosto do fragmento, muito!

Marina disse...

Quem nunca viveu um dia de Aurora?

Julia Moreira disse...

Obrigada pelas palavras, Kate! Estou procurando Auroras perdidas e outras cositas más!

Menina-que-quer-ser-escritora disse...

Interessante a Aurora. Bonito o jeito dela se perder nos pensamentos. Gostei da escolha das imagens. gostei especialmente desta pte
"ficou silêncio no meio de barulho sem forma, até que ela sentiu frio"
e
"Olhando, buscando, achando forças num vazio que parecia infinito de nada."
Um pouco confuso o primeiro paragrafo. Seria intencional pra gente entrar no universo dela?
E pq Aurora? Depois q falamos sobre o nome dos personagens, sempre penso nisso agora...

Julia Moreira disse...

Sabe que esses dois trechinhos são especiais pra mim também? E sim, aquela confusão é intencional.

Aurora por causa do significado da palavra. Do amanhecer, da primeira luz que aparece no dia, antes ainda do nascer do sol. Por ser fugaz e indefinida, por trazer mudança.